Teus olhos Roberto da Silva Ribeiro Teus olhos, sereníssima donzela, São verdadeiramente mentirosos, Não são a luz, nem lâmpada, nem vela, Mas dois abismos tenebrosos. Teus olhos, sereníssima donzela, Saem a correr como corcéis de Astúrias, E do teu olhar de procela Saltam relâmpagos e injúrias. Sei que tua majestade de gazela Esconde tigres perigosos, Que a paz nos teus olhos se revela Doces grilhões escandalosos (Por tais grilhões minha alma anela) Quando me embalas em tua fúria, Da tua vontade de fera Saltam relâmpagos de luxúria.
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Mostrando postagens de outubro, 2021
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Purificação Roberto da Silva Ribeiro Perfumes exóticos ardem Nesse cremador de basalto, São aromas doces que fogem E sobem em nuvens ao alto. Há sândalo rosa sem falta Cromático e cru estoraque, Telúrico incenso do Egito, E turíbulos e atabaque, Os perfumes são derramados E são entre preces queimados, Vão subindo da terra ao céu Nenhuma fragrância no mundo, Esconde o nauseabundo Fedor de um podre mausoléu.
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Lai Roberto da Silva Ribeiro Porque deixaste teu ninho, Apressado passarinho, E com tuas asas ao léu Alças voo até o céu? Não há para ti piedade No peito da humanidade. Por que sair assim cedo? Só a morte não tem medo. Morrerás de frio e fome Não haverá quem te dome. Não viverás, meu amigo, Pois então dorme comigo E amanhã, talvez já tarde, Encontrarás tua liberdade.
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Soneto Roberto da Silva Ribeiro Jamais desprezei esta planície Tão super-habitada e suas dores Onde me é impossível ver as flores Na sua dura e concretada superfície Jamais desprezei esta planície Onde sempre sonhei e tive amores Onde sei reconhecer os rumores Das suas dimensões e imundícies Mas de olhos fechados em meus sonhos Os pequenos espaços perto dela São campos agradáveis e risonhos. São bosques aprazíveis e bisonhos Onde a natureza é tão bela Como só pode ser nos nossos sonhos
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O Vento Roberto da Silva Ribeiro O vento neste morro é diferente O infinito silêncio é a sua voz Ouço-o vivo, voando frio e veloz A soprar das planícies pouco a frente Sim, o vento me agrada plenamente Se faz sentir esta paz de albatroz Quando voa (e quanto vai de tal em nós) O vento traz volúpia a minha mente. Ele sempre parece me chamar Mas ele chama a si mesmo. É assim. Sinto-me diluído, livre e só a voar. Quando o vento vem me libertar A sua tranquilidade é sem fim, E nesta paz, deixo-me naufragar.
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Rotação Roberto da Silva Ribeiro Ao largo, noventa navios coalham o mar Onde não bate o coração nervosamente Embora sopre a tempestade indiferente A quem da praia a observa a se formar As procelárias prenunciam a voar E a solidão vem velejar na minha mente E tudo sopra, e tudo ruge avidamente Em turbilhões acinzentados feitos de ar
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Lira Roberto da Silva Ribeiro Anda em mim um tédio noturno De minhas tristezas totais É como um silêncio soturno, Demências, dormências vitais. Aspiro venenos vulgares Meus olhos vagueiam nos bares Em vizinhas volúpias vagas. Por velozes vívidas sagas, Permaneço sentado só E as horas que passam são pó.
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Canção Noturna Roberto da Silva Ribeiro Dois demônios da noite dançando E num canto do campo cantando Com as bruxas copulam lascivos. Dois demônios da noite sorrindo Pelos cantos correndo e caindo Com as bruxas copulam lascivos Nesta noite no campo cantando Nesta noite correndo e dançando Celebrando os sabás mais lascivos Celebrando seu sabá e sorrindo Destruindo a razão e caindo Estão bêbados, nus e lascivos Celebrando seu sabá e cantando Sobre a tumba dos sábios dançando Com as bruxas copulam lascivos.
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Ode ao anoitecer Roberto da Silva Ribeiro Pelo céu eu corri meu chapéu E afogou-se o sol no oceano O luar prateando-se ao léu Vem marcar a alegria e o profano Nesta noite molhada. Do céu Foi-se o dia, cansado e insano. O lacrau sai da loca sem medo A serpente se enrola com frio, É perigo, mistério e segredo, Mesmo o próprio prazer preocupa. O luar amarelo em silêncio Já invoca seus cães em catadupa. Sobre a água veio o véu da escória Suas coortes de estrelas já brilham Onde o sol defendera seu reino. As corujas já cantam vitória Sobre as luzes solares do dia. Sobre a água veio a noite em glória Suas cortes de estrelas rebrilham. A alquimia da noite é um mistério Tantas álgebras frias de vultos De difícil e mau magistério, De ciências e saberes incultos Prazeres de infiel adultério De murmúrios e monstros ocultos. Quem relembra as origens da noite? Suas histórias escritas no advento ...
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Fugere urbem Roberto da Silva Ribeiro Gosto dos lugares largos e desertos, Dos lugares lúgubres, campos abertos Longe da humanidade incompreensível Onde não há ninguém que possa me odiar Lá, onde há solidão, perto do mar, Longe da humanidade incompreensível. Gosto dos lugares largos, isolados, Os lugares lindos de campos calados, Longe da humanidade incompreensível... Onde não há quem eu deva consolar Onde não há ninguém que queira me amar Longe da humanidade incompreensível
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Spe sublata Roberto da Silva Ribeiro Mas perdoai-me se já baixa a noite E se cansado não resiste o dia Que clama ao horizonte que o acoite E perdoai se a vida se esvazia E se dobro os joelhos sob o açoite Se não realizei o que prometia. Graças aos céus porque não sou herói E posso me render, como faz o dia.
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Elegia Roberto da Silva Ribeiro Meus amigos se vão como a fumaça Como a espuma do beijo que eu jamais Recolhi da tua boca. Meus amigos se vão como a lembrança, Como o calor do abraço que nós nunca Nesta vida trocamos Meus amigos se vão como a mensagem Que eu só fui receber quando era tarde Para me despedir. E tu também partiste como a noite De festa que termina e eu sou o bêbedo Que não notou seu fim. Pra nunca mais te ver serve o tempo, Pra nunca mais lembrar de ti me esqueço Do que nunca existiu. Pra nunca mais te ouvir serve o silêncio Da madrugada fria que me envolve De todas as maneiras. Pra nunca mais te achar servem as ruas Sejam movimentadas ou desertas Das minhas fantasias. Adeus pra nunca mais, adeus, adeus, Não vamos nos rever . Até nunca mais Para sempre jamais.
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Soneto Roberto da Silva Ribeiro Rios amnióticos fluem, úmida grei, A linfa fluminense, doce humor, E os pastores de livros a compor Bebem dela tranquilos onde amei As mulheres (são fêmeas, meu rei) E as flores também bebem o licor Líquido e licoroso a seu dispor E deve ser assim, é, mas que eu sei? Capelas capilares escalpadas Artigos pra artelhos com artrite Em articulações articuladas As ramagens de brônquios com bronquite São feéricas, frígidas, frias fadas Safadas com batons de dinamite.
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Soneto telúrico Roberto da Silva Ribeiro Menino, molho as mãos neste alto mar Cuja água tem enxofre, ferro e vida Para que a poesia possa, lida Em suas nuvens nuas, navegar. Hoje me sinto largo por não achar Terra estranha. Organizo a flor ferida E animado levo para a água polida Este meu monumento ao teu olhar Sonhos de ouro me queimam como urtiga Ardem minhas entranhas, como as queimadas Na selva fervilhante escura e antiga. Em mim irrompem ervas perfumadas E a ágil mão do Sol me religa Às minhas margaridas namoradas
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Figuras Roberto da Silva Ribeiro Um banco do bar Vai virar murmúrio Rude e duro a dar Forca e morte. Perjúrio Forte. Força é cortar Fora o mercúrio A se derramar. Atingindo fure-o E que a formigar Transforme-o. Augúrio Aos homens do mar, É o céu purpúreo. Proporção perfeita (Há nela a janela Da estrela desfeita Que pela panela Passiva se deita) Na prisca procela, Palpitanto, (eita!) Matamos aquela Que pode ser feita Pela lua amarela Como uma desfeita.
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Soneto alexandrino Roberto da Silva Ribeiro Sorte têm os poetas que amam o trabalho E a trama e os põe em versos vivos, sem rimar. Felizes os que cantam os que não têm lar, Nem terra, felizes sonham com a foice e o malho. Sábios são os poetas que fazem do orvalho Cantos à liberdade saudável, solar, Eles se libertaram da dor do luar De todas essas coisas. Mas eu, que é que eu valho? Não sei cantar a paz, nem a guerra, nem nada Como um livro mofado numa biblioteca Estou puro em minh’alma velha, arcaizada. Amo a verdade, mas mesmo assim cada Verso, cada palavra em minha mão se seca Não serve mais pra nada, só pra ser rimada.
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Hino à Lua Roberto da Silva Ribeiro Linda Lua, ilustradora dos livros Do céu, luzeiro largo e amarelado E furtivo. Farol dos fugitivos Que fumam seu cigarro amarrotado Pelas esquinas vivos. Eu burocratazinho, funcionário Das rimas, estegossáuro imperturbável, Lambo um lento luar imaginário Enquanto foge o carro inolvidável, Roubo rodoviário. Canto humilde, humilhado a ti no alto, Cansado de cantar a tua candura Junto às estrelas tolas sobre o asfalto Que umedecido humilha mais a dureza De cada ser em cada assalto.
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Sonata da aurora Roberto da Silva Ribeiro Ah, Dedirrósea Aurora que enristas Os teus dedos tão roxos. Reparava Que enquanto a noite resistia brava Eu também definhava em tuas listas Que são protos selvagens, ametistas, Rosas ardentes, cálices de lava, Sonhos de adolescentes. Doce escrava Dos desejos e dona dos artistas Há além o dia, Aurora, e há o momento No qual zarparemos do teu cais Para não mais voltar, não mais, jamais... O dia que nos trás o frágil vento Que vem inflar as velas do não ser O dia que tu não podes mais deter.
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Soneto da Madrugada Roberto da Silva Ribeiro Noite, fervilhante como a minha alma, Cantiga de amor que nunca foi ouvida, Madrugada cheia de treva e de vida, Silêncio de lar, farfalhar que acalma. Túmulo sem paz, cidade tão calma, A rua com suas brumas brancas é perdida Quando conto pés em minha dura lida Ela corre ao léu, suas frias mãos espalma. Madrugada, bêbada que me encanta Já prostituída em seus vis botequins, As letras são poucas e a emoção é tanta Que as palavras morrem em minha garganta, Noite, amante pálida dos alerquins; Minha voz se cala, minha dor te canta.
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Soneto Roberto da Silva Ribeiro Só nós somos o sumário do tormento, Sombras nuas a sofrer, poços de pragas, Sujo jardim de angélicas pressagas, Um riacho a rugir em rumor lento. Vai-se o tempo total em um momento Aos que venderam vis suas duras chagas, Necrológio igual, letras que afagas, Tudo é um fatal ferimento. Vivemos todos nós como estrangeiros, Por que a fama e o favor são tão ligeiros Quanto um sonho em cor que já se esquece. E quem hoje está vivo há de ir-se E quem virá amanhã há de evair-se Como a ira da tormenta que te tece.
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Cantata Roberto da Silva Ribeiro O farol centenário cujos lúgubres Fachos encandeantes transfiguram Este porto ancestral em difuso Povoado lunar de tristes ruas Fluorescentes e casas que reluzem Na arraia. Viu vulcânico o reflexo Sentiu todo o seu lar verde ao contrário Na vitrine do bar o amor das praias Entre matas de algas e corais, E os tubarões turvados e os robalos Que nada no instável e no frágil, No fugidío fantasma, pois a água Que posta em movimento, quer parada, É um espelho efêmero no qual O mundo se reflete flutuante, Ilusório, do avesso, em invertido, Enquanto que um senhor senil e idoso Com suas asa enormes e com voz De trovão e trombeta profetiza: A espuma ao vento, A nuvem viva, Meu anjo bento, A chama aviva. A ave, a fumaça A água mais fina Tudo embaraça Esta tua sina. Espelho frio, Cruel desdita, Humano cio Que se excita. Toca este sino Que já definha ...
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Ode IV Roberto da Silva Ribeiro Mas a sede do ser é sempre a solta Margem, ou mais além. Aqui e agora O espírito espalhado neste espelho Líquido só se dá a quem se escolhe. Nele a arfagem fugaz de fria verdade Apenas transitória. E a verdadeira regra está em ter Retidão ao romper todas as regras A seu tempo e lugar, para ajustar-se Aos costumes correntes e corretos E ao caprichoso gosto deste cosmos Nos séculos que seguem. Pois não podemos pôr correntes Às coisas deste lado a não ser Que as olhemos nuas e ao avesso Pelo espelho dos olhos refletidos Ou então pelos tempos corrompidos Pelo passar dos séculos.
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Ode III Roberto da Silva Ribeiro Nada acontece longe desses olhos. Dos teus olhos de trégua e trovão Nada acontece fora de tuas vistas Nada, minha menina. Aqui minhas notícias estão velhas A vida está antiga, está antiga Longe de ti, retina dos meus olhos, Longe de ti, menina. Não descansam meus olhos no teu colo Quente, calmo, carinhoso, queridinha, Meus olhos não repousam do teu dolo E estão cegos, menina.
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Baudelaireana Roberto da Silva Ribeiro É necessário ficar sempre bêbado Pois aisto se reduz tudo no mundo, Eis o problema único do ser Humano. Para alguém jamais sofrer O mais cruel castigo do passar Do tempo, que nos corta e nos trai Nessa terra, preciso é, senhores Que nos embriaguemos. Mas de quê? De cachaça, de política, De dor, de fanatismo, de virtude Do que acharmos melhor. Mas é preciso Que nos embriaguemos. E, quando alguma vez, no piso branco De um palácio, ou na relva verde e branda, Numa sarjeta suja ou na deserta E fugaz solidão do nosso quarto Despertarmos, já sóbrios, de ressaca, Perguntemos à estrela da manhã, Ao vento, à vaga, ao vândalo, ao relógio, A todo ser que sofre, que transborda, Que existe, perguntemos que horas são E as estrelas e o pássaro e o relógio, E todo ser que existe e que envelhece Hão de nos responder: “É hora de irmos Já nos embriagar, para não sermos Os mártires do...
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Madrigal Antigo Roberto da Silva Ribeiro Sinestesias, vaguidades várias, Nas madrugadas nebulosas láticas, As tentativas temporãs primárias. Gosto do gosto de secretos bares E do mistério das suas coisas práticas Egocentrismo de perenes pares É minha mestra em seduções, em táticas Nessas doidas matemáticas... A ela devo toda a canção ouvida E o que não sou na minha vida.
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Canção clássica Roberto da Silva Ribeiro Marmórea madrugada no meu quarto Dorme. Rijos ruídos relevados Me esfalfam. Não faz frio. Freis franciscanos Enfeitam as furnas de que me afasto, A César desafiam os gauleses Desde redis dativos do latim. E o Cristo crucifixo olha por mim. Vivo assim minhas mortes e meus meses, Não saio nunca. Fico aqui às vezes. É sombrio ser assim. Porém, posso parir pobres poemas Saídos das sublimes seduções: Dos intemporalíssimos teus temas. Vingam-me o evasivo de tentativas E minhas maluquices em rebanho Que sou mesmo um mártir muito estranho De divas fugitivo.
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Ode anacreôntica À mesa, convivas! Nas taças, o tinto, Nas bocas o beijo, No peito, alegria! Bonita mocinha, Com tirsos de heras, Tornozelos lindos E seios altivos, Toque, dance, vibre: Quero ver teu corpo À Vênus honrar. Vamos camaradas, Marquemos com palmas Os doces compassos Das claras canções! Amável mocinho, Com ramos de louros, Pés ágeis ligeiros Peitoral sublime: Toque, cante, dance Quero ouvir teu canto Dionísio louvar. Se a mãe dos enéadas De mim se esqueceu Já vem me aquecer O bom pai Lieu. Ah, filho dileto De Jove e Semele, Deus claro, eterno Do vinho falerno E dos parreirais Nos anos provectos Ouvi meu cantar. À mesa convivas! Às taças, ao tinto, Aos doces compassos Às claras canções! Empunha-se a taça Enche minha ânfora, Inspira meus versos! Que a lira empenho A ti para sempre Ó Baco, sereno, Ouvi meu clamor! ...
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Ode sáfica Roberto da Silva Ribeiro A solidão: fotografia e fritura, Olho a cegueira em coloridos lances: Tonalidade em mata e morro. Pura Beleza em flor, jardins, romances. Cartão postal, brilho, reflexo e fogo, Lâmpada e vela e candeeiro e facho, Lanterna e lama e lusco-fusco logo Brilho do bar fantasma, eu acho... Raio e relâmpago e estrela luzente Luziluzindo. A solidão: Crepúsculos, Livros, sombra, guarda-sol rompendo o Medo e o perigo tão minúsculos. Piche e azeviche, corvo e abutre e Augusto Dos Anjos. Morte, frio e flor, luto em Plutão. Idealismo: a refração do susto. Reflexão, reflexão... Cor, vigilância e deus pavão, menina Dos olhos córneos. Imprevidência e pena: Braile e bengala e cão de guia e morfina, Pornografia mais serena... A antiguidade em preto e branco e a dores, Câmara escura e negativo em cor, Desenho em luz pálida e amarga. Amores: Cera e papoulas,...
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Soneto Sérvio Roberto da Silva Ribeiro Voa o mocho na noite indiferente, Voa o mocho na névoa ao luar, A Lua reluz nas nuvens nuamente O morcego a reflete em seu olhar. Tem seu olhar a força de um doente, De um doente à morte, a agonizar. Estou preso em seus vôos, minha mente Minha mente é só este lugar. Para e pousa, morcego nos umbrais, O alvorecer não tarda, clandestino, Porém para mim, não, tardou demais. Não ferirão a mim os seus punhais E eu não verei o dia, me defino, Não me verá o dia, não mais.