Ode sáfica

 Roberto da Silva Ribeiro

 

A solidão: fotografia e fritura,

Olho a cegueira em coloridos lances:

Tonalidade em mata e morro. Pura

Beleza em flor, jardins, romances.

 

Cartão postal, brilho, reflexo e fogo,

Lâmpada e vela e candeeiro e facho,

Lanterna e lama e lusco-fusco logo

Brilho do bar fantasma, eu acho...

 

Raio e relâmpago e estrela luzente

Luziluzindo. A solidão: Crepúsculos,

Livros, sombra, guarda-sol rompendo o

Medo e o perigo tão minúsculos.

 

Piche e azeviche, corvo e abutre e Augusto

Dos Anjos. Morte, frio e flor, luto em Plutão.

Idealismo: a refração do susto.

Reflexão, reflexão...

 

Cor, vigilância e deus pavão, menina

Dos olhos córneos. Imprevidência e pena:

Braile e bengala e cão de guia e morfina,

Pornografia mais serena...

 

A antiguidade em preto e branco e a dores,

Câmara escura e negativo em cor,

Desenho em luz pálida e amarga. Amores:

Cera e papoulas, peste, ardor.

 

Céu, mar, frio e gelo. Porcelana e fé. Sangue,

Flor, comunismo e calor, verme encarnado,

Luxo é pimenta e pimentão. Não mangue:

Gosto picante de melado.

 

Febre e rubi: brilho brilhante em paz.

A alvura e a neve e o gelo e a núvem. Bruma:

Religião, óstia, altar de Anás:

Toalha e leite: tudo espuma.

 

Trigo e pão, véu, cásula e cal, magia,

Arroz, papel, virgem caduca. Na infância

Atra, canhestra e negativa, havia

A solidão e a minha ânsia.

 

Serenidade na fé, chá, sujeira,

Petróleo e febre violeta em Bizâncio.

Constantinopla: negritude e feira

Alegre e tola. Mestre Mâncio,

 

Emaranhado em popular papiro,

Delicadeza e inteligência e festas:

Matiz, esmola degradê de lírio,

Música ou tópicos bem bestas.

 

Cor, pontilhismo à tinta e afresco a pó.

Pintura e arte e cartolina e alporama,

Evasão, sonho e diamante. Só

Brasa em carbúnculo me ama

 

Joia e riqueza, claridade e Sol,

Lua e luar, cintilação, candeia:

Vida e alegria, brilhantina e gel,

Seda, cetim, minha sereia.

 

Perto da outra Éris, Íris fita a

Modernidade à luz. Poder de espadas,

Luta e ciência, maravilha excita a

Minha vida, mas me enfadas.


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