Costrução direta Roberto da Silva Ribeiro Aves vivem em volta de uma vela, Vejo a luz venenosa, enquanto, Desprezado de ti, escrevo versos Tão clandestinamente o quanto posso E eu mato borboletas que esvoaçam Pela sala de estar. Isso é poético! E as aves continuam voando lá, E as banais borboletas rebrilham Por aí me incomodando. Vão, vulgar, Estranho te escrever. Hoje um poema Batalha contra um bar de borboletas.
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Mostrando postagens de setembro, 2021
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Décadas Roberto da Silva Ribeiro Dor de dez lirismos, a Lua, Satélite atroz desta Terra, Aplainou os céus de tua rua. Dor de dois lirismos, flor nua, Pelas alvas estradas não erra, Isso só quem faz é tu, rosa Dos rumos que guias a vida Minha! Poesia perdida Num mar oceano de prosa, Desde dois abismos revida... Dois dos dois abismos na beira Se perdem para sempre. Quem Notou minha lua derradeira, Dor dos dois abismos, romeira Por tuas duas estradas? Também Isso quem faz és tu: tudo O que me mata a alma. Com calma, Porque a vida e a via do teu leito Claras se confundem e esbanjo Contigo o calor do meu peito.
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O Cisne Roberto da Silva Ribeiro ?... Nada como uma forma alva que me desalma em cada Faceta frágil, fatal, de sua flama fugaz. Nave inominável, sarça de saudade e gás, Navegante sem cais, Himalaia sem escada ?... Nada. A água lhe forma um par e lhe arranca, Num imposto, um dinar de graça e se faz Na penugem profana a paga. Deixa atrás No lago laminar, a clara água marcada ?... Nada, nem este rastro e nem mesmo imagem há Espelhada será quando as asas amargas Voarem. Não há lar, não há rastros, não há?... Nada, alva alma exilada nos lagos de lá, Nada podes deixar. E se as marcas que largas Se fecham, só nos resta o canto, ave de Alá?...
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Aeres perenius Roberto da Silva Ribeiro O meu problema sempre foi o da matéria scriptoria Dos meus versos. Pergaminho era já só palimpsesto, O papiro imperial, faraônico demais, O papel era plebeu, pobre, de polpa vulgar. Eu tentei a tabuinha argilosa babilônica, Poema de tijolo e cal, porém sua concretude O transformou em parede e não em pássaros vivos, Tentei também trabalhar o liber de faia latino, Frágil como o pensamento e muito mais perecível Que a própria vida. Tentei pedras pentagonais, Madeira, plástico, lã, seda chinesa delgada, Tentei escrever no ar, pichar os muros alvíssimos Das mansões, mas nada pode, em toda a história, jamais Dos meus versos suportar o peso vivo, navalhas Sobre o abismo. Mas eu migro através das dunas desertas E vagueio a rabiscar sobre as simples páginas Do tempo que passa e passa. Aeres perenius se tornam Aeres perenius, mas sempre? Perenes até quando?
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Composição Roberto da Silva Ribeiro Verdes olhos frios de falsa francesa, Pra fazer uns versos que encham teu espelho Qualquer coisa serve, qualquer coisa serve, Pra salmodiar e se odiar o carma. Só há uma verdade e vinte e seis letras Pra se fazer versos que encham teu caderno. Qualquer coisa serve de motivo leve Pra salmodiar e se odiar a rima. Balangandãs de aço de falsa baiana Pra cantar mulheres, qualquer coisa serve. Qualquer coisa serve, serve se sutil Tudo já foi dito, mas ninguém escuta. Só há uma ideia e tão muitas metas Que a arte se repete, que a vida se repete Tudo já foi dito, mas ninguém enxerga Que a arte se repete pra imitar a vida.
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Rondel Roberto da Silva Ribeiro Ele foi prometendo voltar, Não voltou, foi longe demais, Certamente chegou a algum cais, Além, muito além deste mar. Talvez tenha encontrado a paz Esta paz que saiu a buscar. Ele foi prometendo voltar, Não voltou, foi longe demais O vento vem, parece chamar Alguém que não o ouve, não mais. Decerto não leu nos jornais Que ele foi prometendo voltar, Não voltou, foi longe demais...
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Nunc Dimitis Roberto da Silva Ribeiro Nunc dimitis servum tuum, Domine, Para que encontre a paz aquele que a procura, Pois já viu com olhos fatigados Tudo o que há para ver Nunc dimitis servum tuum, Domine, E lhe dá o repouso que tanto ele persegue, Pois já andou com seus pés pesados, peregrinos O que havia pra andar Nunc dimitis servum tuum, Domine, Dá-lhe a morada eterna que tanto ele pede, Pois já foi estrangeiro entre os povos tantos Todos que possa haver Nunc dimitis servum tuum, Domine, Sim, agora despede sem nada o servo, Senho, livra da vida estes meus ombros Cansados. Glora Patri.
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O último soneto Roberto da Silva Ribeiro Este é o último soneto vivo Mas ninguém denuncia sua extinção Pois se apaga em silêncio. Estes são Seus últimos momentos. Pelo crivo Da crítica não passa. Desativo Seus sistemas caducos de botão Em botão e procuro achar o vão De saída. É inútil, sou nativo De um país bloqueado. Que maldito Terceto! Mas um sonho é um perfeito Silogismo. Procuro achar o rito Para segui-lo, mas esqueci o aceito E me perdi entre o dizer e o dito: Este é o último feitiço feito.
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Cantiga Roberto da Silva Ribeiro Dona de doces quadriz Que passas por minha porta Diz, porque o amor existe Se minha alma está morta? Moça dos seios de seda, Que cantas na minha sala, Porque há a dor do desejo Se minha musa se cala? Dona de ideias douradas, De doce voz cor de rosa, Se em teu olhar há verdade, Porque foi escrito em prosa? Corça de corpo sem dono, De vontade feminina, Porque existe para a morte A tua cintura tão fina?
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Figuras Roberto da Silva Ribeiro Um ramo do mar, Um prumo ao murmúrio, A dor gruda dura, Força à morte. Agora Esta força é forte, Norte e norma. Nobre Recém oriúndo Atinge as origens As quais, reformando, Transforma. Receiam-se Os homens de bens Parecer poucos. Na proporção púrpura Há nela a janela Das estrelas quentes Que pelas paradas As luzes azulam. Numa cela, cegos De pálidas pálpebras Palpitando, os homens De bem se suicidam Não podem vive Sabendo da sua Própria estupidez.
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Poema de amor Roberto da Silva Ribeiro Eu queria merecer o teu amor Todo este teu amor que vejo dar Alegres piruetas desenvoltas Como um bando, um rebanho de rebeldes Turbulentos. Amor que sinto ser Um fruto proibido de palmeira Coberta pelo sangue de holocaustos Humanos, cujas palmas nós dão sombra Tenebrosas, umbrosas trevas turvas Em turbilhão. Amor canibalesco, Ânimo de animal nas calmas sendas Das matas tropicais do teu desejo Que é farto de mar e de incêndios rubros E das claras areias de tuas dunas Incestuosas... O teu amor, o teu amor, Que quisera retê-lo inteiro, íntegro, Para que me sentisse, se o tivesse, Deter e reter teu terno pejo De virgem imoral e me mentir, Deter dentro de mim dois oceanos Coagulados por espaços infinitos, Galeras e gaivotas, como a alma Me é talhada de sombras de relâmpagos Coalhando o firmamento enquanto espiam O banho sensual, morno e molhado Das vagas... Queria ter o teu amor Não p...
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Soneto à Ângela Roberto da Silva Ribeiro Ó Ângela, cândida agonia, És flor da fragrância mais erótica, Papoula nigérrima e narcótica Senhora da sã filosofia Penúltima pétala caótica Que aponta-me a porta e a poesia, Senhora da bárbara magia, Lacuna perdida em sombra exótica Vem valsar comigo fragilíssima A ária de sílabas enfáticas Que fiz assim absurdíssima. Vem ver o viver sem as suas táticas, Vem valsar domingo, ó agilíssima, A ária de estrofes matemáticas.
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A Feira Roberto da Silva Ribeiro Nas ruas estreitas, tão plenas de odores, Envolve-me a feita, me agita, me invade, Eu encontro clareiras com dificuldade Por entre as barreiras toscas, multicores. Eu proponho a expor-me a meus pobres pendores, Descobrir a dor da dura humanidade Nessa assustadora e reta realidade De compras e de cores, de frutas e flores. É lá que mais quero encontrar esta trama, A lama estelar e ilusória da vida Que as frias florestas da mina alma inflama, Achar que a lida denota e proclama, Na praça, depressa, em voz desconhecida O que a minha vida devota declama.
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Ode ao decassílabo Roberto da Silva Ribeiro Se eu canto a quantidade em decassílabos Sejam eles perfeitos, sejam frouxos, São, porém, decassílabos meus versos. Eu, denso em decassílabos, eu em dez Sílabas, decassílabos heroicos. Meu doce decassílabo, meu metro, És meu porto tão puro, minha música Tão certa. Que quero eu? Quem que conhece? Quem que conhecerá? Fui o ferrado, Claro, mas quem quer isso, decassílabo? Tantos são tão teimosos neste mundo, Vivem em vão nas vitrines. Ora bolas! Estarão todos tortos e enterrados Como eu fui enterrado. Poderosos Da república, artistas gloriosos, Estarão todos tortos e ferrados, Eu, porém, os invejo amargamente... São os santos Elísios para vós, E para nós o inferno (o largo Hades Para quem preferir mitologia). E quero acreditar em cada culpa Minha e não um capricho do capeta. Assim sou eu, Perfeito Decassílabo, Mas porque eu me perco com as...
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Hino a Dóris Roberto da Silva Ribeiro Uma alheia voz vinga este prazer tão feio: Tu és aconchegante como um corpo estranho E teu olhar vazio de luz, de luto cheio, Fatal como os fatos, letal como os lerdos Se prostitui aos seguros sonhos do século Pois és inacessível a todos os versos És fraco fruto alheio, assim de ti me retiro Pois és rumor da rima, silêncio do sino, E tu que estás no quarto teu e no teu quarto, Que és berço de batalhas, Bastilha de bestas És tão desconhecida e dura quanto a sorte Sendo inacessível a todos os versos. Porém à parte, à porta do teu inferno, aflito Por ti, ó Dóris, dei sentido certo à vida. Fecha agora o crepúsculo sobre o teu dito, Decifra estas frases de cifras e recifes Que vêm compor charadas sobre ti mesma Que és inacessível a todos os versos. Estas linhas são limpas. Com razão duvido De ti, pois eu passei pelos teus paços podres, Eis por trás dos altares e dos teus...
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Credo Roberto da Silva Ribeiro Eu creio na poesia, este patê de perfumes, Que meu sono agitava como um sino Enchendo de sentido todas as procuras. E creio na poesia, a mesma que não exite Nunca por ser matriz da própria criatura, Que abarca no que cria a calma e o crime Que cresce ao cumprir sua crível figura. Eu creio na poesia, esta que quando quebra Lança seu ser sofrido aos bares mais escuros Para poder beber do puro havido. Assim é a poesia: peça sempre partida Mas nunca renegada.
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Ribeirão Preto Roberto da Silva Ribeiro A chuva cai em grossas gotas graves, Molha muito os telhados tisnados E as ruas lamacentas. Afugenta As gentes, interdita minha ida. Na dor das despedidas desse povo Sequer chega-se a sentir o aguaceiro, Pouco a pouco o silêncio se supõe Pelo pátio do colégio. O vozerio, O alarido dos risos vai cedendo Na distância. As crianças se esfregam Nas janelas dos carros que atravessam Estes portões da escola. Após a chuva, O ar parece mais puro, o sol desbota No céu com tons inertes. Onze horas Da manhã arredia, nua, cinzenta E fria. O céu está triste como um homem Sozinho, em pé diante da partida.
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Epitáfio Roberto da Silva Ribeiro Mas era a tarde em sua brisa branda Suas asas em silêncio se fechavam E se aninhava entre a erva e a árvore O sol guardava seu escudo largo Por trás da braúna envelhecida e eterna Que dissolvida neste mar de brasas E sangue tremulava Queimava o pórtico de brilhos e luzes, No ar, coágulos de velhas máguas E o céu rasgado partejava a lua. A solitária estrela Vésper brilhava Como uma âncora de brancas brumas. Morreu a tarde, permanece o tempo Como alguém que se anula E é a mão do tempo a mão que grava triste Um epitáfio para o fim do dia, E é a face deste tempo frio A que sorri sem mesmo ter motivo. E são os lábios deste tempo fino Os que se calam por estarem vagos Do que não seja vil É da cabeça deste tempo triste Que vem o sono para os olhos fracos De um planeta que reflete o céu E se dissipa em estranha bruma clara, A sua fumaça vai polir estrelas, Porém é a mão do p...