Cantata
Roberto da Silva Ribeiro
O farol centenário cujos lúgubres
Fachos encandeantes transfiguram
Este porto ancestral em difuso
Povoado lunar de tristes ruas
Fluorescentes e casas que reluzem
Na arraia. Viu vulcânico o
reflexo
Sentiu todo o seu lar verde ao
contrário
Na vitrine do bar o amor das praias
Entre matas de algas e corais,
E os tubarões turvados e os
robalos
Que nada no instável e no frágil,
No fugidío fantasma, pois a água
Que posta em movimento, quer
parada,
É um espelho efêmero no qual
O mundo se reflete flutuante,
Ilusório, do avesso, em invertido,
Enquanto que um senhor senil e
idoso
Com suas asa enormes e com voz
De trovão e trombeta profetiza:
A espuma ao vento,
A nuvem viva,
Meu anjo bento,
A chama aviva.
A ave, a fumaça
A água mais fina
Tudo embaraça
Esta tua sina.
Espelho frio,
Cruel desdita,
Humano cio
Que se excita.
Toca este sino
Que já definha
O teu destino
Minha rainha.
A morte vem,
A noite vai,
A morte vem,
A noite vai.
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