Soneto

 Roberto da Silva Ribeiro


Só nós somos o sumário do tormento,

Sombras nuas a sofrer, poços de pragas,

Sujo jardim de angélicas pressagas,

Um riacho a rugir em rumor lento.

 

Vai-se o tempo total em um momento

Aos que venderam vis suas duras chagas,

Necrológio igual, letras que afagas,

Tudo é um fatal ferimento.

 

Vivemos todos nós como estrangeiros,

Por que a fama e o favor são tão ligeiros

Quanto um sonho em cor que já se esquece.

 

E quem hoje está vivo há de ir-se

E quem virá amanhã há de evair-se

Como a ira da tormenta que te tece.

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