Ode ao anoitecer


Roberto da Silva Ribeiro

 

Pelo céu eu corri meu chapéu

E afogou-se o sol no oceano

O luar prateando-se ao léu

Vem marcar a alegria e o profano

Nesta noite molhada. Do céu

Foi-se o dia, cansado e insano.

 

O lacrau sai da loca sem medo

A serpente se enrola com frio,

É perigo, mistério e segredo,

Mesmo o próprio prazer preocupa.

O luar amarelo em silêncio

Já invoca seus cães em catadupa.

 

Sobre a água veio o véu da escória

Suas coortes de estrelas já brilham

Onde o sol defendera seu reino.

As corujas já cantam vitória

Sobre as luzes solares do dia.

Sobre a água veio a noite em glória

Suas cortes de estrelas rebrilham.

 

A alquimia da noite é um mistério

Tantas álgebras frias de vultos

De difícil e mau magistério,

De ciências e saberes incultos

Prazeres de infiel adultério

De murmúrios e monstros ocultos.

 

Quem relembra as origens da noite?

Suas histórias escritas no advento

Que resumem balada e pernoite

São estranhos murmúrios ao vento,

Assovios, estalos de açoite

Que é preciso ouvir ao relento.

 

Seu poeta será um maníaco,

Letras letárgicas, línguas mortas,

Em alfarrábios de velhice antiga

Assustador segredo cardíaco.

Dia e noite a lutar desde quando?

A resposta está no Zodíaco.

 

Como vórtices negros perdidos

Nesta noite galáctica e fria

Muitos homens vagueiam ofendidos

Qual demônios em lenta agonia

Agradeço por termos vivido

Ocultando paixão e fantasia.

 

Nobre noite caindo do galho,

Nobre noite de medo e magia

Toda cheia de frescor e orvalho,

Que sucede ao mormaço do dia,

Toda herdeira dos atos mais falhos,

Doce noite de amor e agonia.

 

Eu te espero profunda e eterna

Ofertando a grinaldas prometida

Pois assim como oferto a lanterna

Sem temor te darei a vida.

Eu te espero profana e fraterna

Quando achar a noturna saída.

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