Aeres perenius

 

Roberto da Silva Ribeiro


O meu problema sempre foi o da matéria scriptoria

Dos meus versos. Pergaminho era já só palimpsesto,

O papiro imperial, faraônico demais,

O papel era plebeu, pobre, de polpa vulgar.

Eu tentei a tabuinha argilosa babilônica,

Poema de tijolo e cal, porém sua concretude

O transformou em parede e não em pássaros vivos,

Tentei também trabalhar o liber de faia latino,

Frágil como o pensamento e muito mais perecível

Que a própria vida. Tentei pedras pentagonais,

Madeira, plástico, lã, seda chinesa delgada,

Tentei escrever no ar, pichar os muros alvíssimos

Das mansões, mas nada pode, em toda a história, jamais

Dos meus versos suportar o peso vivo, navalhas

Sobre o abismo. Mas eu migro através das dunas desertas

E vagueio a rabiscar sobre as simples páginas

Do tempo que passa e passa. Aeres perenius se tornam

Aeres perenius, mas sempre? Perenes até quando?

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