Aeres perenius
O meu problema sempre foi o da matéria
scriptoria
Dos meus versos. Pergaminho era
já só palimpsesto,
O papiro imperial, faraônico
demais,
O papel era plebeu, pobre, de polpa
vulgar.
Eu tentei a tabuinha argilosa
babilônica,
Poema de tijolo e cal, porém sua
concretude
O transformou em parede e não em
pássaros vivos,
Tentei também trabalhar o liber
de faia latino,
Frágil como o pensamento e muito
mais perecível
Que a própria vida. Tentei pedras
pentagonais,
Madeira, plástico, lã, seda
chinesa delgada,
Tentei escrever no ar, pichar os
muros alvíssimos
Das mansões, mas nada pode, em
toda a história, jamais
Dos meus versos suportar o peso
vivo, navalhas
Sobre o abismo. Mas eu migro
através das dunas desertas
E vagueio a rabiscar sobre as
simples páginas
Do tempo que passa e passa. Aeres
perenius se tornam
Aeres perenius, mas sempre?
Perenes até quando?
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