Ode ao decassílabo

 

Roberto da Silva Ribeiro


Se eu canto a quantidade em decassílabos

Sejam eles perfeitos, sejam frouxos,

São, porém, decassílabos meus versos.

 

Eu, denso em decassílabos, eu em dez

Sílabas, decassílabos heroicos.

 

Meu doce decassílabo, meu metro,

És meu porto tão puro, minha música

Tão certa. Que quero eu? Quem que conhece?

Quem que conhecerá? Fui o ferrado,

Claro, mas quem quer isso, decassílabo?

 

Tantos são tão teimosos neste mundo,

Vivem em vão nas vitrines. Ora bolas!

Estarão todos tortos e enterrados

Como eu fui enterrado. Poderosos

Da república, artistas gloriosos,

Estarão todos tortos e ferrados,

Eu, porém, os invejo amargamente...

 

São os santos Elísios para vós,

E para nós o inferno (o largo Hades

Para quem preferir mitologia).

E quero acreditar em cada culpa

Minha e não um capricho do capeta.

 

Assim sou eu, Perfeito Decassílabo,

Mas porque eu me perco com as pessoas?

Não tenho que te dar opiniões,

Eu só quero uma torre de marfim.

Danem-se os dietólogos e todos

Os que não acreditam nos arcanos

Da dietologia. Decassílabo,

Onde eu encontrarei o meu cantinho?

Onde eu encontrarei a matemática

Suprema do destino, Decassílabo?

Zero, zero mais zero vezes zero

E noves fora, zero. Não espero

Encontrar decassílabos no céu...

 

O que eu faço não tem mesmo militância

(Ao menos não milito para mim)

Militância nenhuma. Decassílabo

Seu eu canto a quantidade em decassílabos,

Vivam eternamente, os decassílabos

E os pés de decassílabos heroicos.

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