Hino a Dóris


  Roberto da Silva Ribeiro


Uma alheia voz vinga este prazer tão feio:

Tu és aconchegante como um corpo estranho

E teu olhar vazio de luz, de luto cheio,

Fatal como os fatos, letal como os lerdos

Se prostitui aos seguros sonhos do século

Pois és inacessível a todos os versos

 

És fraco fruto alheio, assim de ti me retiro

Pois és rumor da rima, silêncio do sino,

E tu que estás no quarto teu e no teu quarto,

Que és berço de batalhas, Bastilha de bestas

És tão desconhecida e dura quanto a sorte

Sendo inacessível a todos os versos.

 

Porém à parte, à porta do teu inferno, aflito

Por ti, ó Dóris, dei sentido certo à vida.

Fecha agora o crepúsculo sobre o teu dito,

Decifra estas frases de cifras e recifes

Que vêm compor charadas sobre ti mesma

Que és inacessível a todos os versos.

 

Estas linhas são limpas. Com razão duvido

De ti, pois eu passei pelos teus paços podres,

Eis por trás dos altares e dos teus passares

Estão todas tuas trevas mais feias e frias

Eu por ti, Dóris, dou sentido às coisas,

Pois és inacessível a toda a poesia

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